Toda nudez NÃO deveria ser castigada!

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Por: Julio Marinho

“A nudez simboliza o estado primitivo da humanidade, o indivíduo retratado sem os marcadores sociais ou hierárquicos que as roupas constituem.” (Hans Biedermann)

A nudez pode ser usada como arte, protesto ou simplesmente uma manifestação de liberdade. Seja como for, esse não deixa de ser uma dos maiores tabus da sociedade moderna. Embora o conceito de nudez esteja na ausência – parcial ou total – de vestimentas, verificamos que pode ter também outros significados e leituras, dependendo do local, cultura e época que estamos observando. Na cultura ocidental, a nudez está diretamente ligada às genitálias expostas. Muçulmanos consideram a cabeça descoberta a verdadeira nudez. Em algumas tribos africanas pessoas se sentem nuas na falta de adornos no pescoço e orelhas. Isso mostra que a nudez esta condicionada a um contexto social e a percepção que cada cultura tem do corpo humano.

A roupa deveria existir apenas para proteger do frio, do sol, do vento, ou de alguma outra exposição danosa, mas nunca por um conceito subjetivo de estética, ou para salvaguardar a exibição do corpo aos olhares concupiscentes e condenatórios. A imposição do “estar vestido” nada mais é do que uma demonstração de poder, aliás, toda forma de censura o é. A nudez não deveria ser tratada como perversão e pornografia, mas sim com uma expressão legítima e natural do ser e estar, afinal de contas, somos ou não donos do nosso próprio corpo? Até quando seremos obrigados a enquadrar o nosso corpo nos padrões da moral e dos “bons costumes” impostos pela cultura da repressão? Até quando seremos destituídos do nosso direito de mostrarmos o nosso corpo como bem entendermos? 

A grande verdade é que a nudez só é permitida – e incentivada – quando gera lucro. Fora isso é vista como baixaria, falta de vergonha (como se isso fosse um defeito), indecência, sacanagem, perversão, “pecado da carne” etc. E, ao invés de lutar contra a censura do próprio corpo, a sociedade de um modo geral – que posa de moderninha, mas no fundo fica cada vez mais conservadora – reprime as liberdades e reforça seu próprio enrustimento e submissão.

Em algum momento da nossa história o homem ligou a nudez ao sexo, pronto, isso foi o suficiente para que o corpo nu fosse proibido em locais públicos, e, veja quanta hipocrisia, até mesmo dentro de casa. A nudez era bem aceita na antiguidade em algumas regiões da Grécia Antiga, tais como Minoa e Esparta – onde os soldados combatiam nus -, em algumas tribos celtas e no antigo Egito, onde as mulheres podiam andar com os seios expostos e se podia trabalhar nu nas plantações. Até pouco depois do século XVI, a nudez ainda era vista com uma certa naturalidade. Em Israel, no tempo antigo, tomava-se banho completamente nu em fontes e jardins públicos. Também em Israel, nos tempos helênicos, a ginástica era praticada sem roupa alguma. Não vou me reter aqui ao viés histórico da nudez, além de ser muito extenso, não é meu propósito, mas sugiro que façam uma pesquisa sobre esse tema, vale muito a pena. Hoje ainda temos algumas tribos indígenas onde a nudez é vista com naturalidade, pena que a aculturação desses povos faça com que eles se contaminem com nossa deturpada noção do que seja obsceno.

Na questão do nu, no Brasil consegue ainda ser mais hipócrita do que o restante do mundo. Aqui a nudez é tratada como algo não natural – topless na praia nem pensar. É incrível que seios e nádegas (de preferência femininas, já que somos um país extremamente machista) podem ficar a mostra no carnaval (gerando lucro, muitas vezes com dinheiro público), mas nas praias podem “ofender” e “erotizar” as crianças, as mesmas que, aliás, crescem rebolando pornofunks e pornoaxés sob o olhar complacente dos pais.

É a roupa que culturalmente nos insere e nos posiciona na sociedade, no tempo e na moda. A roupa não passa de um símbolo, é um dos primeiros parâmetros pelos quais somos julgados, experimente ir a um bom restaurante “mal vestido”, por exemplo. A roupa é o véu que separa, que camufla, simula e encena. É o muro que aprisiona e o que diferencia o “estar nu” do “ser nu”. Quem já se permitiu ficar nu em uma praia, mesmo que deserta, sabe do prazer que a liberdade da nudez proporciona. O corpo nu, ao contrário do que nos dita a cultura da repressão, não é o instrumento do pecado nem tão pouco obsceno. O problema está na cabeça e nos olhos de quem vê a nudez alheia apenas como algo sexual.

Tal como os outros animais, nascemos nus, no entanto, no afã de parecermos diferentes e declarar nosso poder e superioridade, escolhemos esconder partes do nosso corpo, em particular a genitália. De fato, para um bando de puritanos e conservadores de plantão, que melhor forma de opressão senão a de censurar e reprimir a maior das manifestações de liberdade que é a nudez?

E, para encerrar o texto deixo esse trecho da Peça Dorotéia do Genial Nelson Rodrigues:

“O que me amarga, me ofende e me arruina, o que eu não suporto jamais, é saber que debaixo destas roupas eu trago um corpo nu.”

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6 comentários sobre “Toda nudez NÃO deveria ser castigada!

  1. Bravo! Finalmente alguém toca nesse ponto tão delicado! Nudez… no entanto, nascemos nus e, com roupas ou sem , vermes comerão nossos corpos depois de mortos.
    Lembra aquele vídeo que te mandei, da Parada em São Francisco, de 1974? Pois é, tinha nudez em uma fonte pública… Hoje, organizadores da Parada recomendam que “travestis e trans não fiquem de peito de fora e usem roupas discretas”… Cadê a saudável transgressão? Logo teremos uma parada vestidos de terno e saias longas ( houve uma época que mulher não podia usar calças compridas ) …
    Beijo,
    Ricardo Aguieiras
    aguieiras2002@yahoo.com.br

  2. Obrigado Ricardo, eu sempre pensei em falar desse assunto porque acho essa uma das maiores agressões da sociedade. Como assim não temos liberdade no nosso próprio corpo? Eu sou obrigado a me vestir para não ofender o outro? Como assim?

  3. E o Brasil é mesmo o paradigma dessa hipocrisia, quando até os índios (para lá de aculturados) já se cobrem pudicamente, quando antes não tinham nenhuma dessa noção prepotente e castradora de pecado.
    Óptimo texto! Parabéns!

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